Barão de Drummond e a Origem do Jogo

João Batista Viana Drummond nasceu em Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, no dia 1º de maio de 1825. Seu pai, um coronel mineiro, deixou como dote para cada um dos catorze filhos a quantia de três contos de réis. Com esse capital inicial e um espírito empreendedor que o acompanharia por toda a vida, o jovem Drummond partiu para o Rio de Janeiro disposto a fazer fortuna. Ninguém poderia imaginar que aquele rapaz interiorano criaria, décadas depois, uma das instituições mais duradouras e controversas da cultura brasileira.
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O Empresário de Vila Isabel
Drummond estabeleceu-se inicialmente no comércio de importação, mas seu primeiro grande sucesso no mundo das finanças veio de especulações bem-sucedidas na bolsa de valores. Com o capital acumulado, expandiu seus negócios para setores variados: transportes, construção, indústria têxtil. Em 1872, adquiriu uma vasta chácara na encosta da serra do Engenho Novo, onde vislumbrou um empreendimento ambicioso: construir o primeiro bairro planejado da então capital do Império. Assim nasceu Vila Isabel, batizada em homenagem à Princesa Isabel.
O projeto urbanístico de Vila Isabel demonstrava a visão de Drummond. Ruas largas e arborizadas, infraestrutura moderna para os padrões da época, bondes conectando o bairro ao centro da cidade através da Companhia de Bonds de Vila Isabel, de sua propriedade. Para atrair moradores e visitantes, investiu também em fábricas e habitações operárias, com destaque para a Fábrica Confiança Industrial. Era um empreendedor completo, capaz de enxergar como diferentes negócios poderiam se retroalimentar e valorizar mutuamente.

O zoológico surgiu dessa mesma lógica empresarial. Em 25 de agosto de 1884, Drummond solicitou à Câmara Municipal permissão para instalar um parque de animais em Vila Isabel. Na petição, argumentou que o estabelecimento promoveria o embelezamento e o estudo da fauna, beneficiando a educação e o lazer dos cariocas. Bem relacionado com os poderosos, obteve autorização sem grandes dificuldades. O Jardim Zoológico de Vila Isabel foi inaugurado provisoriamente em 6 de janeiro de 1888, poucos meses antes da abolição da escravatura. Naquele mesmo ano, em reconhecimento aos seus serviços ao desenvolvimento urbano, Drummond recebeu o título de barão pela corte imperial brasileira.
A Crise e a Solução Criativa
A Proclamação da República em novembro de 1889 trouxe consequências inesperadas para o zoológico. Com a queda do Império, cessou o apoio financeiro que Pedro II destinava ao empreendimento. O barão viu-se diante de um problema grave: os custos de manutenção dos animais eram altos, e a bilheteria não gerava receita suficiente. O zoológico, que deveria valorizar Vila Isabel, corria o risco de se tornar um fardo financeiro insustentável.
Drummond não era homem de desistir facilmente. Sua trajetória mostrava alguém disposto a buscar soluções onde outros veriam apenas obstáculos. Em outubro de 1890, peticionou à Intendência Municipal do Rio de Janeiro solicitando autorização para explorar jogos lícitos nas dependências do zoológico, sob a justificativa de que os valores arrecadados com subvenção pública e ingressos mal cobriam os custos operacionais. O pedido foi deferido, com a cláusula de que os jogos estariam sujeitos a fiscalização policial.
Entre os diversos divertimentos permitidos pelo contrato, Drummond concebeu algo original. Inspirado pelo jogo das flores que um mexicano chamado Manuel Ismael Zevada operava na Rua do Ouvidor, imaginou uma loteria baseada nos próprios animais do zoológico. Contratou Zevada como gerente do estabelecimento, e juntos desenvolveram o sistema que usaria 25 bichos, do avestruz à vaca, cada um associado a quatro números entre 00 e 99, totalizando as cem dezenas possíveis. O prêmio seria de 20 vezes o valor do ingresso para quem acertasse o animal sorteado.
O Gênio por Trás da Loteria
A escolha dos 25 animais não foi aleatória. Drummond selecionou espécies que faziam parte do imaginário popular brasileiro e que podiam ser facilmente representadas em desenhos simples nos bilhetes. Avestruz, águia, burro, borboleta, cachorro, cabra, carneiro, camelo, cobra, coelho, cavalo, elefante, galo, gato, jacaré, leão, macaco, porco, pavão, peru, touro, tigre, urso, veado e vaca formavam uma galeria diversificada que permitia associações simbólicas com sonhos, situações cotidianas e superstições populares.
O mecanismo do sorteio era engenhosamente transparente para a época. Às sete da manhã, um animal era escolhido e colocado numa caixa de madeira lacrada. Essa caixa permanecia fechada durante todo o dia, sendo aberta às cinco da tarde diante do público. A impossibilidade de manipular o resultado depois que a caixa era selada dava credibilidade ao processo, fundamental para conquistar a confiança dos apostadores. A primeira extração ocorreu em 3 de julho de 1892, com o avestruz saindo vencedor.
O sucesso foi imediato e surpreendente até para o próprio Drummond. Em poucos dias, o zoológico passou a receber mais de mil visitantes diários, atraídos não tanto pelos animais em exposição, mas pela possibilidade de ganhar no jogo. A imprensa cobriu com entusiasmo, autoridades visitaram o estabelecimento para testemunhar a novidade, e em menos de um mês os resultados dos sorteios já eram aguardados ansiosamente nas ruas do centro da cidade. O barão havia conseguido muito mais do que salvar as finanças do zoológico: criara um fenômeno cultural.
Expansão e Perda de Controle
Drummond era empresário demais para não perceber o potencial do que havia criado. Rapidamente expandiu as operações, abrindo escritórios de venda de bilhetes em diversos pontos do Rio de Janeiro e estabelecendo parcerias com comerciantes locais que atuavam como distribuidores. Seus representantes podiam ganhar quantias significativas, cerca de 50 mil-réis por dia, demonstrando a escala que o negócio atingiu em pouco tempo.
Porém, o sucesso trouxe consequências que o barão não conseguiu controlar. Comerciantes independentes perceberam a oportunidade e começaram a montar suas próprias operações de jogo do bicho, comprando grandes quantidades de bilhetes para revenda e criando redes paralelas de apostadores. Essas casas de apostas funcionavam fora do zoológico e escapavam ao controle de Drummond. O jogo deixou de ser uma atração do parque para se tornar um fenômeno urbano autônomo, espalhando-se por bares, mercearias e esquinas de toda a cidade.
As autoridades, que inicialmente haviam tolerado e até prestigiado a novidade, começaram a questionar sua legalidade. A distinção entre uma rifa beneficente vinculada a um zoológico e uma loteria clandestina operando nas ruas era cada vez mais difícil de sustentar. Em 1895, a prefeitura do Distrito Federal, sob comando de Francisco Furquim Werneck de Almeida, rescindiu o contrato com Drummond e proibiu oficialmente o jogo do bicho. O barão tentou reverter a decisão, mas não obteve sucesso.
O Barão criou o jogo para salvar seu zoológico, dando início à história do jogo do bicho no Rio.
Os Últimos Anos e o Legado
João Batista Viana Drummond faleceu em 1897, aos 72 anos, sem conseguir reaver a autorização para operar legalmente sua criação. O zoológico continuou funcionando por algum tempo, mas nunca recuperou o brilho da era do jogo. Ironicamente, a proibição não extinguiu a loteria dos animais; apenas a transformou em contravenção, abrindo caminho para que outros, muito menos escrupulosos que o barão, assumissem o controle do negócio nas décadas seguintes.

O legado de Drummond é ambíguo. De um lado, foi um empreendedor visionário que contribuiu significativamente para o desenvolvimento urbano do Rio de Janeiro. Vila Isabel permanece como testemunho de sua capacidade de planejar e executar projetos complexos. De outro, criou inadvertidamente uma estrutura que se tornaria sinônimo de contravenção, violência e corrupção no Brasil do século XX. Os grandes bicheiros que viriam depois, com seus impérios territoriais, conexões políticas e disputas sangrentas, são herdeiros distantes daquela rifa inocente inventada para salvar um zoológico em apuros.
Drummond também personifica uma certa audácia empreendedora brasileira, disposta a encontrar soluções criativas em cenários adversos, mesmo quando essas soluções ocupam zonas cinzentas entre o legal e o ilegal. Seu jogo do bicho nasceu dentro da lei, sob contrato com o poder público, e só depois foi criminalizado. Essa ambiguidade originária talvez explique por que tantos brasileiros nunca enxergaram a loteria dos animais como um crime de verdade, mas como uma tradição popular injustamente perseguida.
O Homem Além do Jogo
Seria injusto reduzir Drummond apenas à criação do jogo do bicho. Sua biografia revela um personagem multifacetado, capaz de empreendimentos que iam do sublime ao excêntrico. Além de urbanista, industrial e comerciante, foi um homem de entusiasmos às vezes exagerados. Conta-se que chegou a usar dinamite para explodir parte do Morro do Castelo, no centro do Rio, em busca de um suposto tesouro perdido dos jesuítas. A aventura não rendeu ouro, mas ilustra bem o temperamento de alguém que pensava grande, às vezes pecando pelo exagero.
Sua rede de relacionamentos incluía figuras proeminentes da corte imperial e, depois, da república nascente. Conseguia autorizações onde outros encontrariam obstáculos, financiava obras públicas em troca de concessões, movimentava-se com desenvoltura entre salões e escritórios governamentais. Esse capital social foi fundamental para viabilizar seus empreendimentos, desde a linha de bondes até o zoológico e sua famosa loteria.
O título de barão, recebido nos estertores do Império, coroou uma trajetória de ascensão social típica do Brasil oitocentista. O filho de coronel mineiro que chegara ao Rio com três contos de réis no bolso tornara-se figura respeitada da elite carioca, com negócios diversificados e um bairro inteiro batizado com nome de princesa. Que sua criação mais duradoura tenha sido uma contravenção penal é uma das ironias que a história reserva para aqueles que ousam inovar sem medir todas as consequências.
